sábado, 25 de abril de 2015

Maternidade e Misandria: Qual o X da questão?

Por Laura Muller
Doula e Educadora Perinatal , Facilitadora em Grupos de Coletivos Feministas, Facilitadora em cursos de formação de Doulas. Autora do Projeto Fênix Para Vítimas de Violências Sexuais e Obstétricas, Voluntária e Coordenadora do Grupo Gestar Ouro Preto- MG ,Colunista no site Imprensa Feminista e  Mãe do Arthur.

Primeiro quero falar sobre misandria.

Resumidamente eu explico que misandria é um conceito e não uma realidade. Quando falamos em misandria já recebemos uma chuva de argumentos carregados de falsa simetria comparando a misandria a misoginia. E sobre isso só a algo a falar: FALSA SIMETRIA.

Mulheres são violadas, assediadas, violentadas, deslegitimadas, silenciadas diariamente somente e apenas por serem mulheres. Homem nenhum no mundo passa por qualquer violência citada apenas e somente por ser homem.

A misandria não é ¹ sobre indivíduos específicos e sim sobre o que o homem como ser social representa. Um homem sempre deterá privilégios sobre mulheres enquanto a sociedade se manter em um sistema machista e patriarcal.

Pesquisando para ver o que mais minhas parceiras de luta acham sobre o tema encontrei um texto e destaquei algumas partes que achei relevantes e bem didáticas:

“Misandria é um conceito muito distorcido e mal utilizado. O senso comum basicamente coloca a misandria como ódio individual aos homens, um ódio sem motivo, sem sentido — como se mulheres misandricas fossem animais irracionais. Nos rotulam como “histéricas” (uma denominação amplamente utilizada para torturar e queimar mulheres na Idade Média) e exageradas. Porém, antes de tudo, é preciso encarar que homens cisgêneros formam uma classe política. O que isso significa? Significa que eles, enquanto grupo social, são moldados pelo mesmo tipo de estrutura e também a perpetuam. Quando falamos que “homens são todos iguais” estamos falando da classe política homem e não de suas experiências individuais.”

“Misandria não é ódio descabido e desmotivado, é ódio ao poder que a classe política dos homens exerce.” ²

Dito isso vamos ao ser mãe de menino.

Sou mãe de um menino, um menino lindo que acaba de completar 4 anos de idade. Ele tem os olhos doces e um sorriso encantador. Eu o amei desde sempre. Ele foi desejado, planejado e  recebido com amor por mim e pelo pai dele.

Ser feminista e mãe de menino nunca foi um problema e sim uma responsabilidade. Responsabilidade que eu aceitei como desafio junto com o pai dele.

Responsabilidade, pois sei que futuramente ele deterá os privilégios que o gênero pelo qual ele se identifica e foi designado lhe trarão. E quero e espero que ele tenha consciência disso e viva essa desconstrução.

Enquanto criança isso não influencia, mas não porque é assim e sim porque jamais permiti. Arthur não é criado com sexismos, com coisas de menino e coisas de meninas, não é criado longe do meu ativismo, pelo contrário, Arthur se faz presente em quase tudo que faço e foi após o nascimento dele que meu lado ativista aflorou, pois me vi no dever de cria-lo desconstruindo preconceitos, sexismos e machismo.

Arthur sabe que deve respeitar o corpo de outra pessoa. Certa vez , após uma marcha, ele me surpreendeu com a pergunta “ O côpo é da mulher né mamãe?”

E ao falar que “não permiti”  é porque nossas crianças são bombardeadas diariamente com doses de sexismos por todos os lados. Basta sair na rua e vemos na lojas a divisão: rosa de menina, azul de menino. Coisas de menino, coisas de menina. Menino joga bola e brinca de carrinho e meninas brincam de casinha e boneca e se o contrário surge, surgem as criticas pesadas e as vezes comentários sem noção diretamente à elas.

Arthur tem cabelos compridos, brinca com panelas cor-de-rosa que ele escolheu, joga bola, brinca de casinha, conserta coisas com suas ferramentas, brinca, se aventura, descobre..
E é isso que importa e é isso que uma criança precisa para ter um ambiente saudável onde possa desenvolver seu intelecto e caráter.

Somando ambas as partes chegamos aqui:

Como acredito na misandria como tática de militância e proteção psicológica, como Lausch aponta em seu texto, afirmo que sou misandrica. E isso não significa que eu odeio ou odiarei meu filho. Vou repetir: Não significa que eu odeio ou odiarei meu filho.

E também não significa que se um dia eu tiver uma filha menina eu a amarei mais por isso.
Não confundam as coisas.

Amo meu filho com todas as forças que tenho, amo a maternidade, que para mim foi uma escolha. E mesmo que tivesse sido uma imposição não seria justo com uma criança que ela carregasse o peso disso. Crianças são crianças e essas cargas não lhes pertencem.

Somos nós, os adultos, que somos responsáveis por criá-las para que desconstruam e quebrem ciclos. E isso não é dever exclusivo da mãe. Já comecemos por ai a descontruir a ideia de que a mãe e somente ela é responsável pela criação dos filhos.

Sem apoio social , criar uma criança nos dias atuais é comprar uma guerra desleal de lutar.
Mas isso é assunto para outro texto...
Espero que Arthur cresça e continue pelo caminho da desconstrução que eu, seu pai, seu paidrasto e outras pessoas que participam de sua vida,  o auxiliam a seguir.
E que ele entenda a diferença cruel que existe entre  misoginia que mata mulheres diariamente e a misandria que nunca matou homem algum no mundo.
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¹Existe a misandria a indivíduos específicos, mas não podemos confundir a violência do opressor com a reação do oprimido. Mulheres foram violentadas e silenciadas por séculos. Algumas odeiam homens que as agrediram diretamente e isso é legitimo e deve ser respeitado.
²LAUSCH,Nathália. Misandria: tática de militância e proteção psicológica.