segunda-feira, 20 de abril de 2015

Feministas de internet são menos feministas?

Por Adauana Campos.


Vire e mexe sempre me deparo com pessoas que criticam os militantes de internet. Mas com certa freqüência as feministas tem se tornado um alvo em potencial dos críticos de internet. Por que feministas de internet incomodam tanto? Por que suas militâncias, segundo os críticos, só passam de chiliques digitais?

A internet, nos últimos 10 anos, tem se tornado uma grande ferramenta de disseminação de informação e conhecimento. Movimentos sociais ganharam adeptos e destaque, incluindo o feminismo.

Mas o que é o feminismo?

Feminismo é um movimento social, filosófico e político que possui vertentes e teorias, mas que está em constante construção. Feministas acreditam na equidade social, política e econômica entre os sexos. Mulheres feministas tem consciência dos problemas específicos que acometem o seu gênero e lutam para eliminar as barreiras e as descriminações a que estão sujeitas. Feminismo é a resistência contra o machismo, não o contrário do mesmo.

Mas onde se encaixam as feministas de internet nesse contexto do que é o feminismo?

A partir de agora vou mudar o feministas de internet para mulheres que conhecerem o feminismo através da internet, pois vou mostrar para vocês o porque  de não existir “feminista de internet”, e quando voltar e me referir a esse termo abstrato e imaterial novamente, será em aspas, por motivos de: porque sim.

A mulher que conheceu o feminismo na internet está em desconstrução. Todas nós quando nascemos somos metade vazias e metade fome. Conforme crescemos nossos pais ou quem nos cria nos apresentam o mundo conforme as suas crenças. Aprendemos sobre religião, comportamentos aceitáveis na sociedade, receitas de bolo e somos socializados conforme o nosso sexo biológico.

Pessoas nascidas com vagina são ensinadas a serem femininas, boas mães, delicadas, amáveis, vaidosas, religiosas, prendadas, educadoras, castas, a amar homens... Tudo é uma preparação para a vida adulta, onde a menina já ensinada a ter o seu papel na cultura em que está inserida. Claro que há exceções que fogem as regras, mas elas não representam mudanças na classe mulher, que ainda é socializada e  é ensinada a ser mulher. Esse rito acontece a partir que se descobre no ultra som o sexo do bebê.

A mulher age de forma natural as mais diversas opressões, como ser explorada em trabalhos domésticos e não remunerados, cuidar sozinha dos filhos, renegar seus prazeres e desejos, ver outras mulheres como rivais e inimigas, estar sempre se vigiando para ter uma postura aceitável, ser a culpada pelas violências que sofre e etc.

Quando ela lê pela primeira vez algo contrário ao que ela foi ensinada sendo divulgado e corroborado por um coro de mulheres, ela se espanta. Chega a dizer “essas mulheres são loucas”. Mas conforme o tempo passa, ela percebe que aquelas mulheres não são tão loucas assim, afinal, sempre achou sua vida exaustante, sempre reclamou mentalmente da jornada dupla de trabalho e nunca gostou de escutar cantadas de rua, mas nunca falou, porque achava que por ser mulher deveria passar por aquilo.

A mulher que conheceu o feminismo na internet e se permitiu desconstruir junto aos ensinos de outras mulheres sejam elas Simone de Beavouir, Audre Lorde ou Cora Coralina. Começam a questionar tudo o que lhes foi ensinado desde pequenas, mas que não foi ensinado, por exemplo, ao seu pai ou seu irmão. Que as diferenças entre homens e mulheres são apenas fisiológicas e anatômicas, e em nada lhe diferenciam na hora de desempenhar papéis na sociedade, aos quais eles insistem em dizer que “existem coisas de homens” e “coisas de mulheres”.

Uma mulher feminista pode ser uma engenheira, uma escritora, uma advogada, uma pedreira, uma arquiteta, uma médica, astronauta, uma diretora de empresa e até presidenta de uma nação. Ela não precisa estar ligada em teorias feministas, mas querer ser “diferente” do que lhe foi imposto na infância, já a faz uma subversiva.

A feminista que conheceu a militância da internet pode ser aquela mãe que começa a desconstruir a educação sexista de seus filhos, a professora que não separa os alunos em meninos e meninas, a tia que não lê contos de fadas para a sobrinha, porque ela aprendeu que não existe final feliz com príncipe encantado. Tem a diretora da escola que muda a grade curricular das crianças, e ao invés de contos de fadas sexistas, ensina mitologia grega e nórdica. A mulher negra que hoje desfila seus cachos ou mantêm seu Black Power, como um ato político. A mulher que aprendeu que fazer dietas, além de muitas vezes não ser saudável, não lhe fazia feliz. Na internet ela aprendeu a amar suas formas e que ser gorda não é defeito. A jovem garota que vivia em um relacionamento abusivo, e com as "feministas de internet"  recebeu alertas sobre sua situação e conseguiu se libertar. Dar apoio emocional e psicológico para a amiga que sofreu violência no relacionamento. Segura a mão e dá o ombro para mulheres que sofrem por serem mulheres. Dizer á elas que a culpa NÃO É DELAS.

Também tem aquela mulher que sofria disforia e tinha nojo da própria vagina. Usava cremes, sabonetes e tudo o mais que o mercado lhe impusera, tudo para camuflar seus odores naturais. Descobre seu corpo, o que antes era proibido, hoje não é mais. Se depila ou não se depila. Transa ou não transa. Fica com homens ou com mulheres. É casada e tem filhas. Escreve textos para mulheres. Ela faz o que sente, vive em paz.  São várias mulheres e com uma diversidade incrível. Mas todas tem algo em comum: sofrem opressão por apenas serem mulheres. Claro que há o recorte de classe e raça, mas sempre haverá por trás a opressão de gênero.

Esses são alguns exemplos reais sobre a minha vida, a vida de minhas amigas e pessoas conhecidas. Pessoas que mudaram suas atitudes e comportamentos através do "feminismo de internet". Mudaram suas vidas e até as vidas das pessoas ao seu redor.

Isso não quer dizer que apenas o feminismo é o apontador de mudanças, isso quer dizer que o feminismo foi o começo da mudança na vida de muitas mulheres. E que muitas mulheres conheceram o feminismo através da internet.

As “feministas de internet” aprendem e desconstroem suas atitudes e comportamentos em seu cotidiano. A desconstrução começa quando a mulher abre sua mente e permite aprender sobre os dogmas que lhe foram impostos em sua vida. O empoderamento é coletivo, pois nenhuma mulher se desconstrói sozinha e sempre, sempre vão estar ensinando as demais. Aprender e ensinar é algo infinito na militância feminista. Dizer que "feministas de internet"  não contribuem para o movimento é só mais uma atitude ou fala irresponsável vinda de pessoas que realmente não contribuem em nada, estão mais preocupadas em vigiar as “feministas de internet” e criar páginas para ridicularizar e criticá-las.

Ao invés de rotular e estereotipar mulheres (até aqui anda novo sob o sol) procure algo que lhe interessa. Algo que lhe preencha e satisfaça. Juro pra você que é bom, é legal.  Não perca o seu tempo julgando mulheres que estão procurando melhorar suas vidas, seja na internet ou em coletivos presenciais, ou em ambos. Não importa qual a ferramenta que ela utiliza para desconstruir a reprodução do machismo e a sua socialização, o importante é que ela faz.

E para vocês, “feministas de internet”, continuem desconstruindo, militando, gritando e agindo em suas vidas em concordância com o que escrevem. Mulheres empoderadas estão aí, e esse fato não mudará. A sociedade pode tentar calar nossa voz nos chamando de loucas ou desocupadas, mas incomodamos muito mais na vida real. Por que a sociedade já percebeu que o nosso jeito subversivo veio para ficar e incomodar.



Att, 

feminista de internet.