quarta-feira, 6 de maio de 2015

Da série: "Ser mãe é TÃO legal, mas..."



"Ser mãe é TÃO legal, mas e o pai dessa criança?"

Toda mãe já ouviu algum comentário como esse, infelizmente. E a gente retruca: quem é que disse que toda criança tem pai? Existem milhares de mães e infinitas formas de maternar. 

Inúmeras mulheres são abandonadas quando grávidas e além de ter de lidar com a decisão que por elas é tomada, a de que vão ser mãe, também tem de suportar, dia após dia, as inúmeras violências dessa sociedade misógina que odeia mães. Quer sejam solteiras, quer não. 

Além disso, mulheres lésbicas também são mães. "Mas e o pai?" Não tem! Não precisa. 
Concentrem-se em apoiar as mães e lhes dar o suporte que foi - e é - negado. Que tal lutar por um mundo com menos "E o pai?" e mais, muito mais, "E a mãe?".

Precisamos de lugares inclusivos para mulheres mães.

Feminismo é a libertação de TODAS as mulheres, isso inclui as mães!

sábado, 25 de abril de 2015

Maternidade e Misandria: Qual o X da questão?

Por Laura Muller
Doula e Educadora Perinatal , Facilitadora em Grupos de Coletivos Feministas, Facilitadora em cursos de formação de Doulas. Autora do Projeto Fênix Para Vítimas de Violências Sexuais e Obstétricas, Voluntária e Coordenadora do Grupo Gestar Ouro Preto- MG ,Colunista no site Imprensa Feminista e  Mãe do Arthur.

Primeiro quero falar sobre misandria.

Resumidamente eu explico que misandria é um conceito e não uma realidade. Quando falamos em misandria já recebemos uma chuva de argumentos carregados de falsa simetria comparando a misandria a misoginia. E sobre isso só a algo a falar: FALSA SIMETRIA.

Mulheres são violadas, assediadas, violentadas, deslegitimadas, silenciadas diariamente somente e apenas por serem mulheres. Homem nenhum no mundo passa por qualquer violência citada apenas e somente por ser homem.

A misandria não é ¹ sobre indivíduos específicos e sim sobre o que o homem como ser social representa. Um homem sempre deterá privilégios sobre mulheres enquanto a sociedade se manter em um sistema machista e patriarcal.

Pesquisando para ver o que mais minhas parceiras de luta acham sobre o tema encontrei um texto e destaquei algumas partes que achei relevantes e bem didáticas:

“Misandria é um conceito muito distorcido e mal utilizado. O senso comum basicamente coloca a misandria como ódio individual aos homens, um ódio sem motivo, sem sentido — como se mulheres misandricas fossem animais irracionais. Nos rotulam como “histéricas” (uma denominação amplamente utilizada para torturar e queimar mulheres na Idade Média) e exageradas. Porém, antes de tudo, é preciso encarar que homens cisgêneros formam uma classe política. O que isso significa? Significa que eles, enquanto grupo social, são moldados pelo mesmo tipo de estrutura e também a perpetuam. Quando falamos que “homens são todos iguais” estamos falando da classe política homem e não de suas experiências individuais.”

“Misandria não é ódio descabido e desmotivado, é ódio ao poder que a classe política dos homens exerce.” ²

Dito isso vamos ao ser mãe de menino.

Sou mãe de um menino, um menino lindo que acaba de completar 4 anos de idade. Ele tem os olhos doces e um sorriso encantador. Eu o amei desde sempre. Ele foi desejado, planejado e  recebido com amor por mim e pelo pai dele.

Ser feminista e mãe de menino nunca foi um problema e sim uma responsabilidade. Responsabilidade que eu aceitei como desafio junto com o pai dele.

Responsabilidade, pois sei que futuramente ele deterá os privilégios que o gênero pelo qual ele se identifica e foi designado lhe trarão. E quero e espero que ele tenha consciência disso e viva essa desconstrução.

Enquanto criança isso não influencia, mas não porque é assim e sim porque jamais permiti. Arthur não é criado com sexismos, com coisas de menino e coisas de meninas, não é criado longe do meu ativismo, pelo contrário, Arthur se faz presente em quase tudo que faço e foi após o nascimento dele que meu lado ativista aflorou, pois me vi no dever de cria-lo desconstruindo preconceitos, sexismos e machismo.

Arthur sabe que deve respeitar o corpo de outra pessoa. Certa vez , após uma marcha, ele me surpreendeu com a pergunta “ O côpo é da mulher né mamãe?”

E ao falar que “não permiti”  é porque nossas crianças são bombardeadas diariamente com doses de sexismos por todos os lados. Basta sair na rua e vemos na lojas a divisão: rosa de menina, azul de menino. Coisas de menino, coisas de menina. Menino joga bola e brinca de carrinho e meninas brincam de casinha e boneca e se o contrário surge, surgem as criticas pesadas e as vezes comentários sem noção diretamente à elas.

Arthur tem cabelos compridos, brinca com panelas cor-de-rosa que ele escolheu, joga bola, brinca de casinha, conserta coisas com suas ferramentas, brinca, se aventura, descobre..
E é isso que importa e é isso que uma criança precisa para ter um ambiente saudável onde possa desenvolver seu intelecto e caráter.

Somando ambas as partes chegamos aqui:

Como acredito na misandria como tática de militância e proteção psicológica, como Lausch aponta em seu texto, afirmo que sou misandrica. E isso não significa que eu odeio ou odiarei meu filho. Vou repetir: Não significa que eu odeio ou odiarei meu filho.

E também não significa que se um dia eu tiver uma filha menina eu a amarei mais por isso.
Não confundam as coisas.

Amo meu filho com todas as forças que tenho, amo a maternidade, que para mim foi uma escolha. E mesmo que tivesse sido uma imposição não seria justo com uma criança que ela carregasse o peso disso. Crianças são crianças e essas cargas não lhes pertencem.

Somos nós, os adultos, que somos responsáveis por criá-las para que desconstruam e quebrem ciclos. E isso não é dever exclusivo da mãe. Já comecemos por ai a descontruir a ideia de que a mãe e somente ela é responsável pela criação dos filhos.

Sem apoio social , criar uma criança nos dias atuais é comprar uma guerra desleal de lutar.
Mas isso é assunto para outro texto...
Espero que Arthur cresça e continue pelo caminho da desconstrução que eu, seu pai, seu paidrasto e outras pessoas que participam de sua vida,  o auxiliam a seguir.
E que ele entenda a diferença cruel que existe entre  misoginia que mata mulheres diariamente e a misandria que nunca matou homem algum no mundo.
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¹Existe a misandria a indivíduos específicos, mas não podemos confundir a violência do opressor com a reação do oprimido. Mulheres foram violentadas e silenciadas por séculos. Algumas odeiam homens que as agrediram diretamente e isso é legitimo e deve ser respeitado.
²LAUSCH,Nathália. Misandria: tática de militância e proteção psicológica.



segunda-feira, 20 de abril de 2015

Feministas de internet são menos feministas?

Por Adauana Campos.


Vire e mexe sempre me deparo com pessoas que criticam os militantes de internet. Mas com certa freqüência as feministas tem se tornado um alvo em potencial dos críticos de internet. Por que feministas de internet incomodam tanto? Por que suas militâncias, segundo os críticos, só passam de chiliques digitais?

A internet, nos últimos 10 anos, tem se tornado uma grande ferramenta de disseminação de informação e conhecimento. Movimentos sociais ganharam adeptos e destaque, incluindo o feminismo.

Mas o que é o feminismo?

Feminismo é um movimento social, filosófico e político que possui vertentes e teorias, mas que está em constante construção. Feministas acreditam na equidade social, política e econômica entre os sexos. Mulheres feministas tem consciência dos problemas específicos que acometem o seu gênero e lutam para eliminar as barreiras e as descriminações a que estão sujeitas. Feminismo é a resistência contra o machismo, não o contrário do mesmo.

Mas onde se encaixam as feministas de internet nesse contexto do que é o feminismo?

A partir de agora vou mudar o feministas de internet para mulheres que conhecerem o feminismo através da internet, pois vou mostrar para vocês o porque  de não existir “feminista de internet”, e quando voltar e me referir a esse termo abstrato e imaterial novamente, será em aspas, por motivos de: porque sim.

A mulher que conheceu o feminismo na internet está em desconstrução. Todas nós quando nascemos somos metade vazias e metade fome. Conforme crescemos nossos pais ou quem nos cria nos apresentam o mundo conforme as suas crenças. Aprendemos sobre religião, comportamentos aceitáveis na sociedade, receitas de bolo e somos socializados conforme o nosso sexo biológico.

Pessoas nascidas com vagina são ensinadas a serem femininas, boas mães, delicadas, amáveis, vaidosas, religiosas, prendadas, educadoras, castas, a amar homens... Tudo é uma preparação para a vida adulta, onde a menina já ensinada a ter o seu papel na cultura em que está inserida. Claro que há exceções que fogem as regras, mas elas não representam mudanças na classe mulher, que ainda é socializada e  é ensinada a ser mulher. Esse rito acontece a partir que se descobre no ultra som o sexo do bebê.

A mulher age de forma natural as mais diversas opressões, como ser explorada em trabalhos domésticos e não remunerados, cuidar sozinha dos filhos, renegar seus prazeres e desejos, ver outras mulheres como rivais e inimigas, estar sempre se vigiando para ter uma postura aceitável, ser a culpada pelas violências que sofre e etc.

Quando ela lê pela primeira vez algo contrário ao que ela foi ensinada sendo divulgado e corroborado por um coro de mulheres, ela se espanta. Chega a dizer “essas mulheres são loucas”. Mas conforme o tempo passa, ela percebe que aquelas mulheres não são tão loucas assim, afinal, sempre achou sua vida exaustante, sempre reclamou mentalmente da jornada dupla de trabalho e nunca gostou de escutar cantadas de rua, mas nunca falou, porque achava que por ser mulher deveria passar por aquilo.

A mulher que conheceu o feminismo na internet e se permitiu desconstruir junto aos ensinos de outras mulheres sejam elas Simone de Beavouir, Audre Lorde ou Cora Coralina. Começam a questionar tudo o que lhes foi ensinado desde pequenas, mas que não foi ensinado, por exemplo, ao seu pai ou seu irmão. Que as diferenças entre homens e mulheres são apenas fisiológicas e anatômicas, e em nada lhe diferenciam na hora de desempenhar papéis na sociedade, aos quais eles insistem em dizer que “existem coisas de homens” e “coisas de mulheres”.

Uma mulher feminista pode ser uma engenheira, uma escritora, uma advogada, uma pedreira, uma arquiteta, uma médica, astronauta, uma diretora de empresa e até presidenta de uma nação. Ela não precisa estar ligada em teorias feministas, mas querer ser “diferente” do que lhe foi imposto na infância, já a faz uma subversiva.

A feminista que conheceu a militância da internet pode ser aquela mãe que começa a desconstruir a educação sexista de seus filhos, a professora que não separa os alunos em meninos e meninas, a tia que não lê contos de fadas para a sobrinha, porque ela aprendeu que não existe final feliz com príncipe encantado. Tem a diretora da escola que muda a grade curricular das crianças, e ao invés de contos de fadas sexistas, ensina mitologia grega e nórdica. A mulher negra que hoje desfila seus cachos ou mantêm seu Black Power, como um ato político. A mulher que aprendeu que fazer dietas, além de muitas vezes não ser saudável, não lhe fazia feliz. Na internet ela aprendeu a amar suas formas e que ser gorda não é defeito. A jovem garota que vivia em um relacionamento abusivo, e com as "feministas de internet"  recebeu alertas sobre sua situação e conseguiu se libertar. Dar apoio emocional e psicológico para a amiga que sofreu violência no relacionamento. Segura a mão e dá o ombro para mulheres que sofrem por serem mulheres. Dizer á elas que a culpa NÃO É DELAS.

Também tem aquela mulher que sofria disforia e tinha nojo da própria vagina. Usava cremes, sabonetes e tudo o mais que o mercado lhe impusera, tudo para camuflar seus odores naturais. Descobre seu corpo, o que antes era proibido, hoje não é mais. Se depila ou não se depila. Transa ou não transa. Fica com homens ou com mulheres. É casada e tem filhas. Escreve textos para mulheres. Ela faz o que sente, vive em paz.  São várias mulheres e com uma diversidade incrível. Mas todas tem algo em comum: sofrem opressão por apenas serem mulheres. Claro que há o recorte de classe e raça, mas sempre haverá por trás a opressão de gênero.

Esses são alguns exemplos reais sobre a minha vida, a vida de minhas amigas e pessoas conhecidas. Pessoas que mudaram suas atitudes e comportamentos através do "feminismo de internet". Mudaram suas vidas e até as vidas das pessoas ao seu redor.

Isso não quer dizer que apenas o feminismo é o apontador de mudanças, isso quer dizer que o feminismo foi o começo da mudança na vida de muitas mulheres. E que muitas mulheres conheceram o feminismo através da internet.

As “feministas de internet” aprendem e desconstroem suas atitudes e comportamentos em seu cotidiano. A desconstrução começa quando a mulher abre sua mente e permite aprender sobre os dogmas que lhe foram impostos em sua vida. O empoderamento é coletivo, pois nenhuma mulher se desconstrói sozinha e sempre, sempre vão estar ensinando as demais. Aprender e ensinar é algo infinito na militância feminista. Dizer que "feministas de internet"  não contribuem para o movimento é só mais uma atitude ou fala irresponsável vinda de pessoas que realmente não contribuem em nada, estão mais preocupadas em vigiar as “feministas de internet” e criar páginas para ridicularizar e criticá-las.

Ao invés de rotular e estereotipar mulheres (até aqui anda novo sob o sol) procure algo que lhe interessa. Algo que lhe preencha e satisfaça. Juro pra você que é bom, é legal.  Não perca o seu tempo julgando mulheres que estão procurando melhorar suas vidas, seja na internet ou em coletivos presenciais, ou em ambos. Não importa qual a ferramenta que ela utiliza para desconstruir a reprodução do machismo e a sua socialização, o importante é que ela faz.

E para vocês, “feministas de internet”, continuem desconstruindo, militando, gritando e agindo em suas vidas em concordância com o que escrevem. Mulheres empoderadas estão aí, e esse fato não mudará. A sociedade pode tentar calar nossa voz nos chamando de loucas ou desocupadas, mas incomodamos muito mais na vida real. Por que a sociedade já percebeu que o nosso jeito subversivo veio para ficar e incomodar.



Att, 

feminista de internet.